Você abre o card e, antes de terminar de ler, já sabe como resolver.

Você já fez aquilo antes, umas quantas vezes, e o caminho aparece inteiro: onde mexer, o que vai quebrar, quanto tempo leva.

Você começa.

Na terça aparece um consumidor daquele endpoint que ninguém lembrava que existia. Na quinta, descobre que o formato do payload mudou desde a última vez que você mexeu ali.

Alguns dias depois o trabalho triplicou de tamanho e você segue no mesmo caminho.

Ele funcionava. Só era o mais caro dos que estavam disponíveis naquele dia.

A pergunta que ficou comigo

Num treinamento sobre aprendizagem que conduzi este ano, uma pessoa do time levantou a mão e perguntou o que fazer quando o que ela já sabe atrapalha a entrada do novo.

A pergunta ficou comigo.

Ninguém costuma dizer isso em voz alta. Admitir que o próprio repertório está atrapalhando soa como admitir que o repertório não presta, e não é isso que acontece.

Onde isso se encaixa

A edição #008 terminou com um aviso que eu deixei em aberto: automatizar funciona igualmente bem para o padrão errado.

O mesmo mecanismo que te deixa rápido no que é bom te deixa rápido no que é ruim. E esta edição fala sobre isso.

Ainda é o quarto pilar da aprendizagem do Dehaene, a consolidação. Só que visto pelo outro lado.

A gente já esteve neste tabuleiro

Na #008 o xadrez serviu para mostrar que a experiência muda o que você enxerga. O mestre olha cinco segundos e reconstrói a posição, porque onde o iniciante vê peças soltas ele vê blocos conhecidos.

Vamos voltar ao mesmo tabuleiro, agora olhando por um outro prisma.

Merim Bilalić, Peter McLeod e Fernand Gobet montaram posições de xadrez que aceitavam duas soluções: uma sequência famosa, que qualquer jogador experiente reconhece, e outra mais curta e melhor.

Os jogadores achavam a sequência famosa e paravam por ali. Diante de uma posição equivalente, montada sem a sequência famosa disponível, jogadores de nível similar achavam a solução curta sem dificuldade.

Outro estudo, mais antigo, já tinha apontado na mesma direção. Em 1942, Abraham Luchins deu a voluntários uma série de problemas de medir água com jarras, todos resolvidos pela mesma fórmula de três passos. Depois entregou um problema que também aceitava uma solução de dois passos, bem mais simples.

Quem tinha passado pela série continuou usando a fórmula longa. Quem chegou direto no último problema via a solução curta na hora. O efeito ganhou o nome de Einstellung.

De volta ao tabuleiro, a parte que mais interessa veio do rastreamento ocular.

Os olhos diziam outra coisa

Enquanto olhavam o tabuleiro, os jogadores relatavam em voz alta que estavam procurando alternativas. Eles acreditavam nisso.

O equipamento mostrou os olhos voltando, de novo e de novo, às casas ligadas à primeira solução.

E reforço aqui o peso do que isso significa: a primeira ideia não ocupa só o lugar da resposta. Ela passa a dirigir para onde você olha, e faz isso por baixo, sem pedir licença à sua consciência.

Você acha que está avaliando opções, e na verdade está confirmando a que já chegou.

É por isso que se esforçar mais não resolve sozinho. O esforço acontece dentro do campo de visão que a primeira ideia já delimitou.

Eu conhecia aquele código

Minha primeira experiência de gestão foi em meados dos anos 2000. Comando e controle era o único modelo que eu conhecia, e era o que praticamente todo mundo ao meu redor praticava.

Algum tempo depois fui conhecendo o jeito que algumas Big Techs do Vale do Silício trabalhavam: autonomia, autogestão, contexto no lugar de ordem.

A troca de modelo foi rápida e sem muita fricção, para ser honesto. Vi os resultados em qualidade de entrega, em engajamento e em gente que ficava. Mudei de ideia sem grande drama.

Uma peça do modelo antigo não veio junto: a de que decidir bem exigia dominar o mínimo detalhe.

Anos depois, como coordenador de um time, essa peça cobrou.

Estávamos discutindo um problema de arquitetura e a solução chegou pronta na minha cabeça. Eu conhecia aquele sistema, tinha escrito parte dele, e sugeri um caminho.

O time aceitou, sem muita discussão.

A conta veio parcelada. A cada avanço aparecia trabalho que não estava previsto, e a solução foi ficando mais cara do que planejamos.

Aquela crença, a peça do modelo antigo, tinha mais de uma década quando me custou um caminho mais caro.

O que me tirou de lá foram os próprios alinhamentos com o time. Quando parei de chegar com caminho e passei a perguntar o porquê de cada descoberta nova, eles colocaram outras rotas na mesa.

E mudou o jogo. Eles estavam no código todo dia e enxergavam o que eu já não enxergava.

Isso pedia uma troca de modelo mental: sair do lugar de quem domina a solução técnica, para abrir espaço ao time e me ocupar do que o novo papel exigia.

A troca de modelo resolveu uma parte. A outra parte é a que me pegou.

Eu já sabia, àquela altura, que não estava mais por dentro daquele código. E as soluções continuaram chegando prontas, com a mesma confiança de sempre.

O reflexo não consulta o quanto você está atualizado antes de responder.

O que mudou foi o peso que elas passaram a ter. Elas continuam aparecendo, eu dou um peso muito menor a elas e só verbalizo se necessário.

Por que dói mais em quem sabe mais

Existe um achado da pesquisa de carga cognitiva que explica bem essa assimetria.

Em 2003, Slava Kalyuga, Paul Ayres, Paul Chandler e John Sweller descreveram o que chamaram de efeito de reversão da expertise: o mesmo apoio instrucional que ajuda muito o iniciante pode atrapalhar quem já tem o esquema formado.

O motivo é econômico. Quem já tem o esquema construído precisa processar o apoio instrucional e o próprio esquema ao mesmo tempo, e essa checagem cruzada consome memória de trabalho que o iniciante não gasta.

É a mesma carga cognitiva que a #008 usou para explicar por que exemplos resolvidos ajudam no começo. Aqui ela aparece invertida.

Vale a mesma régua para uma solução conhecida. Quanto mais treinado o esquema, mais cedo ele dispara, e menos janela sobra para qualquer alternativa aparecer.

Quem tem mais tempo de estrada apanha mais em troca de paradigma por causa disso, e não por teimosia.

O esquema não sai

A palavra desaprender sugere que dá para apagar alguma coisa. Vale olhar para o que a pesquisa mostra sobre como um esquema antigo muda de fato.

O primeiro caminho é a reconsolidação. Quando você recupera uma memória, ela fica maleável por um período e é gravada de novo depois. É por essa janela que o esquema velho pode ser atualizado, em vez de ficar competindo para sempre com o novo.

O segundo é a discriminação. Em vez de treinar a execução do que você já domina, você treina reconhecer qual esquema serve para qual situação. O que você aprende ali é a leitura do contexto, e ela é o que decide qual reflexo vai ser útil.

Repare que os dois caminhos mantêm o esquema antigo vivo. Ele muda de forma e muda de peso, sem sumir.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo. A solução continua chegando pronta. O que aprendi foi a tratar a chegada dela como uma hipótese, e não como a resposta.

O que fazer com a próxima solução que chegar pronta

Camada 1, sem ferramenta nenhuma.

Na próxima vez que a solução chegar antes de você terminar de ler o problema, escreva ela num papel (ou onde preferir). Isso leva menos de um minuto e serve para tirar a solução da sua cabeça.

Depois obrigue-se a produzir uma segunda antes de avaliar qualquer uma das duas.

A segunda não precisa ser boa. Ela precisa existir, porque é a existência dela que quebra o campo de visão que a primeira montou.

Só compare as duas depois que as duas estiverem escritas. Cinco a dez minutos, uma vez por dia, durante uma semana.

O resultado observável aparece rápido: conte quantas vezes, na semana, a segunda solução foi a escolhida. Se for zero, você provavelmente escreveu variações da primeira, o que também é informação.

Camada 2, para quando você tiver dez minutos parado.

Abra uma nota e escreva duas linhas.

Na primeira, uma coisa que você já sabe e que vai te ajudar no desafio que está pela frente. Arquitetura, revisão de código, condução de conversa difícil, o que for seu.

Na segunda, uma crença sua sobre como se faz alguma coisa que talvez esteja dirigindo o seu olhar sem você perceber. A minha, por exemplo, escreveria assim: eu preciso conhecer o detalhe para decidir bem.

A crença fica escrita para você reconhecer o cheiro dela quando ela chegar disfarçada de solução óbvia.

Guarde a nota e volte nela daqui a um mês.

Todo conceito que você automatiza compra tempo. E cobra uma taxa: ele passa a responder antes de você perguntar.

O quarto pilar entrega as duas coisas no mesmo pacote, e não existe versão dele que entregue só a primeira metade.

A travessia dos quatro pilares mostrou como o conhecimento entra, se corrige e se fixa. O que sobra depois deles é uma habilidade diferente: perceber quando o que já está fixado está decidindo no seu lugar.

Quem sabe fazer isso reaprende a vida inteira.

Um contexto por vez.

Fontes desta edição:
Stanislas Dehaene, É assim que aprendemos (2022) | Abraham S. Luchins, Mechanization in Problem Solving: The Effect of Einstellung (Psychological Monographs, 1942, vol. 54, n. 6, p. i-95) | Merim Bilalić, Peter McLeod e Fernand Gobet, Why Good Thoughts Block Better Ones: The Mechanism of the Pernicious Einstellung (Set) Effect (Cognition, 2008, vol. 108, n. 3, p. 652-661) | Merim Bilalić, Peter McLeod e Fernand Gobet, The Mechanism of the Einstellung (Set) Effect: A Pervasive Source of Cognitive Bias (Current Directions in Psychological Science, 2010, vol. 19, n. 2, p. 111-115) | Slava Kalyuga, Paul Ayres, Paul Chandler e John Sweller, The Expertise Reversal Effect (Educational Psychologist, 2003, vol. 38, n. 1, p. 23-31) | Peter C. Brown, Henry L. Roediger III e Mark A. McDaniel, Fixe o Conhecimento (2018)

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Esta é a Um Contexto Por Vez. Uma newsletter sobre princípios de engenharia, neurociência e psicologia da aprendizagem aplicadas a como a gente que é de tech aprende e reaprende numa área que não para de mudar.

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